Kuba entrou no quarto do pai e de Marta apenas por um instante. Foi o que disse a si mesmo, parado junto à cômoda, com a mão enfiada na segunda gaveta de cima. No andar de baixo, a lava-louças zumbia, a televisão estava desligada, e Andrzej não aparecia desde a manhã. Marta só voltaria tarde de alguma reunião, pelo menos foi o que dissera no almoço. A casa estava silenciosa, silenciosa até demais, e foi justamente aquele silêncio que lhe deu coragem.
Ele tirou um tecido fino e escuro, mais liso do que esperava. Segurou-o nas mãos, como se ainda pudesse fingir para si mesmo que se tratava apenas do toque, de um impulso, de um reflexo idiota. O coração martelava em sua garganta. Estava entre a cama e a cômoda, tenso, puto consigo mesmo, e ainda assim não o colocava de volta. Pelo contrário — apertou-o com mais força.
Só ouviu passos no corredor quando já era tarde demais.
A maçaneta se moveu brevemente. A porta se abriu sem pressa. Marta parou à entrada, com a bolsa escorregada do ombro, vestindo uma camisa clara e uma saia escura, como se tivesse voltado de uma noite normal, e não bem no meio de sua humilhação. Primeiro, olhou para o rosto dele. Depois, para a mão. Então voltou a olhar para ele.
Kuba ficou imóvel.
— Eu só… — começou, mas a voz lhe falhou.
Marta não entrou imediatamente. Encostou-se de leve ao batente e estreitou os olhos. Não parecia chocada. Isso era pior.
— Só o quê? — perguntou calmamente.
Kuba instintivamente quis esconder a lingerie atrás das costas, mas o gesto foi tão infantil que ele próprio se odiou por isso. Recuou a mão para junto do corpo e cerrou os dentes.
— Desculpa.
— Isso não é uma resposta.
Ele ficou em silêncio. O sangue ribombava em seus ouvidos. Queria passar por ela, correr para o próprio quarto, bater a porta e fingir que nada havia acontecido, mas ela continuava parada na passagem, calma, imóvel, certa de que ele não se mexeria.
— Mostre — disse.
Ele ergueu a mão como um condenado entregando uma prova. O tecido pendia entre seus dedos. Marta continuou olhando por mais um instante, depois entrou e fechou a porta atrás de si. O clique da fechadura soou anormalmente alto no silêncio.
Kuba ergueu a cabeça de repente.
— Marta…
Ela não respondeu de imediato. Deixou a bolsa na poltrona junto à janela e então girou a chave na porta sem pressa. Só depois olhou diretamente para ele. Em seu rosto não havia pânico nem indignação teatral. Havia, em vez disso, uma espécie de curiosidade fria que apertou seu estômago com mais força do que o medo.
— Já que está fuçando nas minhas coisas — disse — não vamos fingir que não sei por que você veio até aqui.
— Não é isso.
Ela soltou uma risadinha seca.
— Não me insulte com uma mentira idiota.
Deu dois passos em sua direção. Ele recuou por reflexo, até bater a panturrilha na beirada da cama. Não se sentou; ficou ali, tenso como uma corda. Marta parou perto, mas não tocou nele. Seu olhar desceu até o tecido em sua mão e voltou ao rosto dele.
— Suas orelhas estão vermelhas — observou secamente. — Até agora.
Kuba baixou os olhos.
— Eu disse que sinto muito.
— E eu não disse que quero um pedido de desculpas.
Isso o tirou do ritmo. Ele piscou, como se tivesse ouvido errado.
Marta estendeu a mão. Por um segundo, ele pensou que ela lhe tomaria aquilo que segurava ou lhe daria um tapa com a precisão fria que aparentava ter. Em vez disso, apenas tocou seu pulso, muito de leve, e abaixou sua mão, para que o tecido voltasse a ficar bem visível entre os dois.
— Já que pegou isso — disse baixinho — vista.
Kuba ficou imóvel de repente, como se alguém tivesse cortado seu suprimento de ar.
— O quê?
— Você ouviu.
— Não.
— Não? — repetiu calmamente, sem elevar a voz, mas havia tanta certeza naquela única palavra que ela soou mais ameaçadora do que um grito. — Então talvez eu deva chamar seu pai e nós conversemos sobre o que você está fazendo no nosso quarto com a minha lingerie nas mãos.
Kuba empalideceu.
— Por que está fazendo isso?
Marta inclinou a cabeça. — Porque quero ver se você é tão corajoso quanto achava que era cinco minutos atrás.
O quarto ficou abafado. Do andar de baixo ainda vinha o zumbido discreto da lava-louças, absurdamente comum diante do que acontecia ali. Kuba olhava para ela, desamparado, tentando encontrar em seu rosto uma brincadeira, uma provocação, qualquer coisa que lhe permitisse recuar sem uma humilhação completa. Não havia nada disso.
— Marta, eu…
— Vista — repetiu.
Ela não elevou a voz. Não precisava. Permanecia ereta, com os braços soltos ao longo do corpo, como se não fosse ela quem estava junto à porta com a chave, como se não tivesse, com um único gesto, virado do avesso tudo o que ainda há pouco parecia simples: a vergonha, a fuga, a briga. Agora já não havia espaço para nenhum desses cenários.
Kuba engoliu em seco. Seus dedos tremiam visivelmente. Por mais um momento, permaneceu imóvel, cerrando a mandíbula com tanta força que chegou a doer. Então desviou o olhar, como se não conseguisse suportar encará-la, e começou a obedecer à ordem com um movimento trêmulo.
Marta recuou um passo, dando-lhe espaço, mas não desviou o olhar nem por um segundo.
Era justamente isso o pior. E o mais perturbador.
Ela não ria. Não dava sermão. Não o salvava. Apenas observava.
Ele lutava contra a própria respiração, contra a sensação de que logo queimaria vivo só pela consciência de estar sendo visto com tamanha precisão. Cada movimento parecia alto demais. O farfalhar do tecido junto às suas mãos soava como um ruído ensurdecedor. Quando terminou, instintivamente quis se cobrir, cruzar os braços, sentar-se, qualquer coisa que o fizesse parecer menor sob aquele olhar.
— Mãos para baixo — disse Marta imediatamente.
Ele obedeceu. Como um idiota, pensou, odiando a si mesmo. Como alguém que ainda poderia ter fugido um instante antes, mas que já não fugiria.
Marta observou-o por um longo momento. Depois passou por ele e verificou a fechadura mais uma vez, como se quisesse ter certeza. O leve som da chave batendo no metal selou tudo.
— Muito bem — disse.
Aquelas duas palavras o atingiram com mais força do que um insulto.
Ela se afastou da porta e indicou com o queixo a cadeira diante da penteadeira.
— Fique ali. E nem pense em transformar isso numa piada, Kuba. Você já não é criança.
Ele se aproximou, sentindo sob os pés a maciez do tapete e o próprio tremor, que não conseguia controlar. Parou onde ela mandara, rígido, envergonhado, excitado com tudo aquilo de uma maneira que tinha medo de nomear até em pensamento.
Marta ainda o observou por um instante, depois se sentou na beirada da cama, de frente para ele. Endireitou as costas, cruzou as pernas e entrelaçou as mãos sobre o joelho. Como uma juíza. Como uma mulher que não pretendia mais abrir mão do controle.
— Agora — disse baixinho — você vai olhar para mim e ficará aqui até eu decidir o que vem depois.
Kuba ergueu os olhos. Dessa vez, não foi o primeiro a desviá-los.
Portas trancadas
Kuba permanecia imóvel junto à penteadeira, como se alguém o tivesse pregado ao chão. O abajur ao lado da cama lançava uma luz quente e abafada, que não lhe deixava sombra alguma para se esconder. Marta estava sentada à sua frente, tranquila, com as mãos entrelaçadas sobre o joelho. Não dizia nada. Apenas olhava.
O primeiro minuto se arrastou como um fio. Depois, o segundo. Kuba sentia as orelhas, a nuca e a pele do peito arderem. Tentava respirar de maneira uniforme, mas sua respiração se desorganizava o tempo todo. Uma vez, abriu a boca, como se quisesse dizer alguma coisa.
— Não — disparou Marta imediatamente.
Ele fechou a boca.
Seu olhar não era histérico nem divertido. Isso era pior. Atento. Preciso. Um olhar que avaliava, guardava na memória e não oferecia alívio algum.
— Há quanto tempo isso acontece? — perguntou por fim.
Kuba engoliu em seco. — Não sei.
— Isso não é uma resposta.
— Há algum tempo.
Marta inclinou levemente a cabeça. — “Há algum tempo” também não.
Ele cerrou a mandíbula. — Alguns meses.
Ela não se moveu. — E achou que eu nunca descobriria?
— Eu não achei.
— Isso eu acredito — disse secamente.
O quarto ficou tão silencioso que ele ouvia as batidas do próprio pulso. Marta percorreu com o olhar seu rosto, pescoço, ombros, mais abaixo, sem pressa, sem fingir que olhava para outro lugar. Kuba suportou aquilo talvez porque já não tinha para onde fugir. Ou porque justamente isso era o que mais o desestabilizava.
— Você está olhando para o chão — disse ela.
Ele ergueu os olhos imediatamente.
— Melhor.
Aquele “melhor” soou outra vez como um toque em um lugar que não deveria ser tocado.
Marta só se levantou depois de algum tempo. Devagar, sem movimentos bruscos. O salto bateu de leve no chão quando ela deu um passo, depois outro. Kuba ficou todo tenso, mas não recuou. Ela parou diante dele perto o bastante para que sentisse seu perfume, quente e um pouco sufocante por causa do quarto fechado.
— Olhe para mim direito — disse baixinho.
Ele olhou.
Ela não o tocou de imediato. Primeiro, apenas ficou ali, permitindo que a tensão crescesse entre os dois como algo vivo. Então ergueu a mão e passou os nós dos dedos por seu queixo, obrigando-o a não baixar o rosto.
— Sabe o que há de pior nisso? — perguntou.
Kuba ficou em silêncio.
— Que você realmente enxerga. — A voz dela era quase indiferente, mas havia algo mais duro por baixo. — Por tanto tempo. Com tanta insistência. Como se nada mais existisse.
Os dedos dela deslizaram do queixo dele. Permaneceram por um instante junto ao pescoço, roçando de leve a pele.
— Andrzej nunca olhou para mim por tanto tempo.
A frase ficou suspensa entre os dois, mais pesada do que tudo o que tinha sido dito antes.
Kuba estremeceu, como se ela o tivesse atingido. Não porque tivesse elevado a voz. Justamente porque não elevou. Disse aquilo de forma direta, sem enfeites, sem lágrimas, sem toda aquela teatralidade da mágoa. Como um fato que já não precisava esconder nem de si mesma.
— Marta…
— Não diga “desculpa” agora. — Ela recuou a mão. — Nem nada inteligente. Você vai estragar.
Ele franziu a testa. — O quê?
— O momento em que pelo menos um de nós não está mentindo.
Por um momento, ficaram se olhando de perto, sem nenhuma proteção. Por fim, Marta soltou o ar pelo nariz, virou-se e foi até a cama. Sentou-se de novo, mas de outra maneira, mais pesada. Como se tivesse de repente sentido um cansaço que antes não se permitia sentir.
— Venha — disse.
Kuba hesitou apenas um segundo. Aproximou-se.
— Mais perto.
Ele parou bem diante dela.
Marta olhou para ele de baixo. — Você ainda está tremendo.
— E você não.
O canto da boca dela se contraiu. — Não tenha tanta certeza.
Ela estendeu a mão e pousou a palma no quadril dele, onde o tecido fino era a prova mais absurda daquilo que estava acontecendo. Não apertou com força. Bastou tocar. Kuba fechou os olhos por uma fração de segundo.
— Abra — disse ela.
Ele obedeceu.
— Bom menino — soltou, mas sem ternura. Mais como um teste para ver o que ele faria com aquelas palavras.
Ele fez exatamente aquilo que temia: estremeceu ainda mais.
Marta percebeu. É claro que percebeu. Levantou-se mais uma vez, agora sem distância. O rosto dela estava muito perto. Kuba sentia o calor do hálito dela nos lábios, embora ela ainda não o tocasse. Por um segundo, pensou que aquilo fosse outra brincadeira no limite, que ela pararia exatamente antes.
Ela não parou.
O beijo não foi delicado nem romântico. Foi investigativo, faminto e um pouco raivoso. Kuba correspondeu na mesma hora, rápido demais, com força demais, como se algo dentro dele, tensionado desde o instante em que ela entrara no quarto, tivesse se rompido. Marta apoiou as mãos na nuca dele e o puxou para mais perto, depois foi a primeira a se afastar.
— Já chega — disse, antes que ele conseguisse buscar os lábios dela outra vez.
Ele respirava baixinho, ofegante. — Já chega?
— Por enquanto.
Por um instante, ele pareceu querer protestar. Então viu o rosto dela e se calou. Não havia recuo nele. Havia decisão.
— Venha — soltou.
Não para a cama de casal. Para a porta. Ela a abriu, escutando por um segundo o corredor vazio, e fez um sinal com a cabeça. Kuba saiu primeiro, rígido, ainda atordoado. Marta apagou o abajur, fechou a porta atrás de si sem trancá-la e o seguiu pelo corredor escuro até o quarto dele.
Lá dentro estava mais frio. A escrivaninha coberta de coisas, o guarda-roupa entreaberto, um moletom jogado sobre a cadeira. A bagunça comum de um homem adulto que ainda mora com o pai. Marta entrou e olhou uma vez ao redor do quarto, como se avaliasse um território desconhecido, depois fechou a porta usando apenas a maçaneta.
— Quer que eu acenda? — perguntou Kuba.
— Não. Assim está bom.
A luz do poste da rua entrava pela persiana em faixas finas. Marta tirou os sapatos, colocou-os alinhados junto à parede e sentou-se na beirada da cama dele, como se fizesse aquilo havia muito tempo. Kuba ficou parado no meio do quarto, olhando para ela, indefeso.
— Você não vai voltar? — perguntou enfim.
— Não.
— E se o pai…
— Hoje ele não volta antes da noite. Amanhã de manhã estará na cozinha, como sempre. — Ela o encarou com firmeza. — Você também vai estar como sempre. Entendeu?
— Sim.
— Ótimo.
Ela o puxou pela mão. Dessa vez sem ordem, mas também sem espaço para recusa. Ele se sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio por um instante, ouvindo a própria respiração e o ruído distante de um carro do lado de fora. Marta baixou a cabeça sobre o ombro dele, como se testasse não tanto o corpo dele, mas a possibilidade de fazer algo sem precisar se explicar a ninguém.
Kuba ficou imóvel. Depois, com cuidado, muito cuidado, apoiou a face nos cabelos dela.
— Não vá pensar demais — murmurou.
— Um pouco tarde.
Ela soltou uma risada curta, quase inaudível. — Pois é. Isso é verdade.
Deitaram-se sem pressa. Marta não tirou mais roupa, apenas desabotoou o botão de cima da camisa e ajeitou a saia para acomodar melhor as pernas. Kuba apagou o celular, colocou-o sob o travesseiro e deitou-se ao lado dela, de lado, de frente para ela. Na penumbra, os olhos dela permaneceram abertos por muito tempo.
— Kuba.
— O quê?
— Não vou entregar a ninguém o que aconteceu hoje naquele quarto. Está me entendendo?
— Sim.
— Isso é nosso. E deve ficar em silêncio.
Ele assentiu, embora soubesse que, no escuro, ela talvez não pudesse ver. Marta estendeu a mão e pousou-a espalmada sobre o peito dele. Não avançava, não provocava. Apenas a mantinha ali. O peso daquela mão o acalmava e, ao mesmo tempo, não o deixava adormecer de imediato.
Por fim, a respiração de Marta ficou mais lenta. Ela relaxou os dedos, mas não retirou a mão. Kuba olhou para o teto, depois para a faixa de luz na parede, depois de novo para ela. Não sabia qual parte de tudo aquilo era mais irreal: o fato de ela estar deitada ao lado dele ou o fato de que, pela manhã, a casa continuaria de pé exatamente como antes.
Quando fechou os olhos mais uma vez, sentia apenas o calor do corpo dela ao lado e aquele silêncio novo e pesado, que não era vazio, mas um acordo. Um acordo que ninguém assinara e que não podia ser desfeito.
Antes do café da manhã
Kuba acordou antes de o despertador tocar. Não soube imediatamente por quê. Por um instante, ficou imóvel, com a cabeça pesada e a garganta seca por causa do sono superficial. Então sentiu o calor ao seu lado e ficou tenso por inteiro, como se a eletricidade tivesse voltado a percorrê-lo.
A alvorada cinzenta se esgueirava pela persiana. O quarto parecia comum e, por isso, ainda pior: a escrivaninha, a cadeira com o moletom jogado, a caneca de chá junto à cama. E Marta, na cama dele, de lado para ele, com uma das mãos enfiada sob a bochecha. A camisa estava amassada, os cabelos ligeiramente espalhados pelo travesseiro. Ela não parecia alguém pego em flagrante. Parecia mais alguém que parou onde quis e logo sairia dali sem dar explicações.
Kuba se ergueu minimamente sobre o cotovelo. O colchão se moveu.
Marta abriu os olhos na mesma hora. Atenta. Sem aquele torpor do sono.
Por um segundo, apenas ficaram se olhando. À noite, tudo era mais simples, porque era escuro. Ao amanhecer, voltaram as paredes, as portas, a cozinha logo ali, a mesa à qual, dentro de pouco tempo, todos teriam de exibir uma expressão normal.
— Que horas são? — perguntou Kuba baixinho.
Marta virou a cabeça na direção do relógio digital sobre a escrivaninha. Os números brilhavam fracamente em azul.
— Vinte para as seis.
Ela se sentou devagar. A saia deslizou sobre o edredom com um farfalhar seco. Passou os dedos pelos cabelos, prendeu-os atrás da orelha e ficou sentada ereta por um instante, o olhar baixo, como se estivesse conferindo mentalmente o plano do dia. Kuba observava a linha da nuca dela e sentia no estômago algo entre orgulho e náusea.
— Já vou me levantar — disse.
Ele não perguntou: “E agora?”. Tinha mais medo daquela pergunta do que de qualquer outra coisa desde o dia anterior. Porque a resposta poderia achatar tudo ou, pelo contrário, transformar aquilo em algo que ele não conseguiria suportar.
Marta se levantou da cama. Estava descalça, silenciosa, segura. Na penumbra, ajeitou a camisa, abotoou o botão que deixara aberto durante a noite, alisou o tecido sobre os quadris com a mão. Depois se abaixou para pegar os sapatos e, por um instante, com uma das mãos apoiada na parede, enfiou o pé no primeiro e depois no segundo. Cada movimento era objetivo, econômico, sem nervosismo.
Kuba se sentou, e o edredom escorregou até os joelhos.
— Marta.
Ela olhou para ele por cima do ombro.
— O quê?
Ele travou. Tudo o que tinha na cabeça soava ou lamentável ou agressivo demais. “Fique mais um pouco” era ridículo. “Isso vai acontecer de novo?” era ainda pior. No fim, saiu o mais simples.
— Nada.
O canto da boca dela se contraiu quase imperceptivelmente, sem chegar a ser um sorriso.
Ela se aproximou da cama. Não se sentou. Ficou bem ao lado dele, tão perto que ele via as pequenas marcas deixadas pelo travesseiro em sua bochecha. Estendeu a mão e ajeitou a gola da camiseta dele, como se ele fosse um garoto prestes a descer para ir à escola. Esse gesto foi mais brutal do que o beijo da noite.
— Escuta bem o que eu vou te dizer agora — falou baixinho. — Lá embaixo, não fica olhando para mim feito um idiota.
Kuba engoliu em seco.
— Claro.
— Não fala nem menos nem mais do que de costume. Não faça essa sua cara tensa, porque seu pai vai perceber na hora.
— Tá bom.
— Se eu perguntar se você quer ovos mexidos, responde normalmente. Como se tivesse acordado depois de uma noite qualquer no seu próprio quarto.
— Porque eu acordei.
Dessa vez, ela o encarou com mais dureza. Não ofendida. Um aviso.
— Não seja insolente agora.
— Não estou sendo.
— Está sendo um pouco, sim.
Caiu um breve silêncio. Kuba apertou a mão no edredom. Teve vontade de agarrá-la pelo pulso, detê-la, obrigá-la a ficar ali por mais um instante, apenas ali, não lá na cozinha, não no papel de esposa do pai dele. Mas aquela não era mais a noite. Ao amanhecer, ela voltava a impor as condições.
— E você? — perguntou por fim.
— Eu o quê?
— Vai fingir?
Marta se inclinou um pouco mais, até que seus rostos ficassem a pouca distância um do outro.
— Não vou fingir. — Sua voz estava tranquila. — Vou me comportar normalmente. Não é a mesma coisa.
Ele sentiu algo apertar sob as costelas. Porque ela tinha razão, e por isso era ainda pior.
Ela se endireitou. Estendeu a mão até a roupa de cama, tirou do travesseiro um único fio claro de cabelo seu e o jogou no chão. Depois desviou o olhar para a cadeira onde estava pendurado o moletom dele.
— Abra a janela por cinco minutos quando eu sair — disse. — Está com o seu cheiro aqui, o meu perfume e esse maldito abafamento de depois de dormir. Deixe arejar.
— Marta.
Dessa vez, ela não respondeu de imediato.
— O quê?
Kuba ergueu os olhos para ela. — Você vai voltar mais cedo hoje?
Era um risco. Ele mesmo ouviu que tinha soado rápido demais, ávido demais. Algo afiado passou por seus olhos, mas ela não recuou.
— Olha só como você já está corajoso depois de uma noite — disse baixinho.
Ele baixou os olhos. — Isso soou uma merda.
— Soou mesmo.
Passou um segundo. Dois.
Então ela tocou o queixo dele com dois dedos e ergueu seu rosto de volta. Um gesto breve, firme.
— Primeiro, sobreviva ao café da manhã.
Retirou a mão, virou-se e foi até a porta. Apertou a maçaneta com muito cuidado. Antes de abrir, ficou escutando por um instante, com a cabeça levemente inclinada. A casa ainda dormia; apenas a geladeira zumbia em algum lugar ao fundo, enquanto lá fora vinha o ruído distante do primeiro carro no condomínio.
A porta se abriu sem ranger.
Marta olhou para trás mais uma vez. Não havia ternura nisso. Era uma verificação para saber se ele tinha entendido.
— Cinco minutos — lembrou.
— Eu sei.
E saiu.
Kuba ficou sentado, imóvel, ouvindo os passos dela pelo corredor. Macios, regulares, sem pressa. Então a porta do banheiro bateu. Um instante depois, o barulho da água. Um som tão comum que chegava a ser absurdo.
Ele só se levantou quando a ouviu seguir adiante. Abriu a janela. O ar frio da manhã entrou imediatamente, cortante e úmido. Apoiado no parapeito, inspirou-o profundamente. Na entrada da casa, nada ainda se movia. A casa vizinha tinha as persianas fechadas. Tudo permanecia tranquilo, como se a noite não tivesse deixado vestígio algum.
Quando desceu alguns minutos depois, da cozinha vinham o chiado da manteiga na frigideira e o cheiro de café. Marta estava junto à bancada, de costas para a entrada. Na luz clara da manhã, parecia arrumada, quase austera: cabelos presos, camisa já alisada, rosto frio. Com uma mão, mexia os ovos; com a outra, alcançava o sal.
Ela não se virou imediatamente. Só quando ele entrou mais fundo na cozinha, disse num tom habitual:
— Você acordou. Quer ovos mexidos?
Kuba sentiu a garganta se fechar diante daquela frase banal. Apoiou a mão no batente para que ela não percebesse.
— Quero — respondeu. — Obrigado.
Marta assentiu, como se não houvesse mais nada a acrescentar, e despejou a cebolinha na frigideira.
Na bancada ao lado, havia três pratos.
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